Ensinamentos Católicos sobre Mudança Climática e Responsabilidade pela Criação

O Papa Francisco publicará um encíclica sobre ecologia (ver “O que é uma Encíclica?”) em torno de junho de 2015, tendo como base os ensinamentos de seus predecessores. Este documento deverá ser lido com atenção pelos católicos, já que fornecerá diretrizes para a abordagem de questões ambientais de forma geral e de mudança do Clima em particular. Enquanto aguardamos essa encíclica, vale a pena ler os ensinamentos da Igreja sobre esse tema ao longo dos últimos 25 anos.

1) PAPAS

O Papa João Paulo II, o Papa Bento XVI e o Papa Francisco aceitaram a realidade da mudança do Clima causada pelo homem e atribuíram a esse tema valor moral. A seguir são apresentadas palavras especialmente significativas nesse sentido.

Santo João Paulo II

  • Mensagem para o Dia Mundial da Paz, “Paz com Deus criador, Paz com toda a criação”, 1990:
    “Observa-se nos nossos dias uma consciência crescente de que a paz mundial está ameaçada, não apenas pela corrida aos armamentos, pelos conflitos regionais e por causa das injustiças que ainda existem no seio dos povos e entre as nações, mas também pela falta do respeito devido à natureza, pela desordenada exploração dos seus recursos e pela progressiva deterioração da qualidade de vida. (…) Perante a difusa degradação do ambiente, a humanidade já se vai dando conta de que não se pode continuar a usar os bens da terra como no passado. (…) O gradual esgotamento do estrato do ozônio e o consequente ‘efeito de estufa’ que ele provoca já atingiram dimensões críticas, por causa da crescente difusão das indústrias, das grandes concentrações urbanas e dos consumos de energia. Escórias industriais, gases produzidos pela combustão de carburantes fósseis, desflorestação imoderada, uso de alguns tipos de herbicidas, refrigerantes e propelentes, tudo isto, como se sabe, é nocivo para a atmosfera e para o ambiente. Daí resultam múltiplas mudanças meteorológicas e atmosféricas, cujos efeitos vão desde o prejuízos para a saúde até à possível submersão, no futuro, de terras baixas. (…) Inserindo a questão ecológica no contexto mais vasto da causa da paz na sociedade humana, melhor nos daremos conta quanto é importante prestar atenção àquilo que a terra e a atmosfera nos revelam: existe no universo uma ordem que deve ser respeitada; e a pessoa humana, dotada da possibilidade de livre escolha, tem uma grave responsabilidade na preservação desta ordem, também em função do bem-estar das gerações futuras. A crise ecológica – uma vez mais o repito – é um problema moral. (…) Ao concluir esta Mensagem, desejo dirigir-me especialmente aos meus Irmãos e às minhas Irmãs da Igreja católica, para lhes recordar a obrigação importante de tomarem cuidado com tudo o que foi criado.”
  • Mensagem para o Dia Mundial da Paz, “No Respeito dos Direitos Humanos, o Segredo da Verdadeira Paz”, 1999:
    “Relacionado com a promoção da dignidade humana está também o direito a um meio ambiente saudável, já que o mesmo põe em evidência a dinâmica das relações entre o indivíduo e a sociedade. Um conjunto de normas internacionais, regionais e nacionais sobre o meio ambiente está gradualmente a dar forma jurídica a tal direito. Todavia, as medidas jurídicas, sozinhas, não bastam. O perigo de danos graves à terra e ao mar, ao clima, à flora e à fauna exige uma profunda mudança no estilo de vida típico da atual civilização de consumo, sobretudo nos países mais ricos. (…) O presente e o futuro do mundo dependem da salvaguarda da criação, porque existe uma interação constante entre a pessoa humana e a natureza. Colocar o bem do ser humano no centro da atenção pelo meio ambiente é, na realidade, a maneira mais segura para preservar a criação; é que, deste modo, fomenta-se a responsabilidade de cada um pelos recursos naturais e pelo seu uso sensato.”
  • Outros ensinamentos ambientais de João Paulo II podem ser encontrados aqui (em inglês).

Papa Bento XVI

  • Mensagem para o Dia Mundial da Paz, “Se quiser cultivar a paz, proteja a criação”, 2010:
    “O respeito pela criação reveste-se de grande importância, designadamente porque ‘a criação é o princípio e o fundamento de todas as obras de Deus’. (…) Pode-se porventura ficar indiferente perante as problemáticas que derivam de fenômenos como as alterações climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais? Como descurar o fenômeno crescente dos chamados ‘refugiados ambientais’, ou seja, pessoas que, por causa da degradação do ambiente onde vivem, se vêem obrigadas a abandoná-lo – deixando lá muitas vezes também os seus bens – tendo de enfrentar os perigos e as incógnitas de um deslocamento forçado? (…) Na realidade, é urgente a obtenção de uma leal solidariedade entre as gerações. Os custos resultantes do uso dos recursos ambientais comuns não podem ficar a cargo das gerações futuras. (…) A Igreja tem a sua parte de responsabilidade pela criação e sente que a deve exercer também em âmbito público, para defender a terra, a água e o ar, dádivas feitas por Deus Criador a todos, e antes de tudo para proteger o homem contra o perigo da destruição de si mesmo.”
  • Encíclica Papal Caritas in Veritate, 2009:
    “O tema do desenvolvimento aparece, hoje, estreitamente associado também com os deveres que nascem do relacionamento do homem com o ambiente natural. Este foi dado por Deus a todos, constituindo o seu uso uma responsabilidade que temos para com os pobres, as gerações futuras e a humanidade inteira. (…) Há urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade, especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os países altamente industrializados. As sociedades tecnicamente avançadas podem e devem diminuir o consumo energético seja porque as atividades manufatureiras evoluem, seja porque entre os seus cidadãos reina maior sensibilidade ecológica. Além disso há que acrescentar que, atualmente, é possível melhorar a eficiência energética e fazer avançar a pesquisa de energias alternativas (…) É igualmente forçoso que se empreendam, por parte das autoridades competentes, todos os esforços necessários para que os custos econômicos e sociais derivados do uso dos recursos ambientais comuns sejam reconhecidos de maneira transparente e plenamente suportados por quem deles usufrui e não por outras populações nem pelas gerações futuras: a proteção do ambiente, dos recursos e do clima requer que todos os responsáveis internacionais atuem conjuntamente e se demonstrem prontos a agir de boa fé, no respeito da lei e da solidariedade para com as regiões mais débeis da terra. (…) As modalidades com que o homem trata o ambiente influem sobre as modalidades com que se trata a si mesmo, e vice-versa. Isto chama a sociedade atual a uma séria revisão do seu estilo de vida que, em muitas partes do mundo, pende para o hedonismo e o consumismo, sem olhar aos danos que daí derivam. (…) A Igreja sente o seu peso de responsabilidade pela criação e deve fazer valer esta responsabilidade também em público. Ao fazê-lo, não tem apenas de defender a terra, a água e o ar como dons da criação que pertencem a todos, mas deve sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo. Requer-se uma espécie de ecologia do homem, entendida no justo sentido. De fato, a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana: quando a ‘ecologia humana’ é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia ambiental.”
  • Luz do Mundo: O Papa, A Igreja e os Sinais dos Tempos, pp. 42-9, 2010:
    “Em vista da catástrofe (climática) ameaçadora, em toda parte se reconhece que devemos tomar decisões morais. Há também grau razoável de consciência de que a responsabilidade por esse tema é global; de que a ética não deve fazer referência apenas ao grupo ou à nação da qual alguém faz parte, mas que deve ter em vista a Terra e todas as pessoas. A questão, então, é: como pode a grande vontade moral, por todos afirmada e evocada, tornar-se uma decisão pessoal? Se isso não ocorre, a política permanece impotente. Quem pode assegurar que essa consciência geral penetre também a esfera pessoal? Isso pode ser feito apenas por uma autoridade que toque a consciência, que seja próxima do individuo e que não apenas chame por eventos que chamem atenção. Nesse sentido, impõe-se um desafio à Igreja. Ela não apenas tem uma grande responsabilidade; ela é, eu diria, com grande freqüência a única esperança. Porque ela é tão próxima da consciência das pessoas que pode movê-las a atos particulares de sacrifício e pode inculcar atitudes básicas nas almas.”
  • Discurso ao corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé, 2012:
    “Não podemos esquecer as graves calamidades naturais que, ao longo de 2011, afetaram várias regiões do Sudeste asiático e os desastres ecológicos como o da central nuclear de Fukushima no Japão. A salvaguarda do ambiente, a sinergia entre a luta contra a pobreza e a luta contra as alterações climáticas constituem áreas importantes para a promoção do desenvolvimento humano integral.”
  • Angelus, 27 de novembro de 2011:
    “Terão início amanhã em Durban, na África do Sul, os trabalhos da Convenção da ONU sobre as mudanças climáticas e do protocolo de Kyoto. Faço votos por que todos os membros da comunidade internacional concordem uma resposta responsável, credível e solidária para este preocupante e complexo fenômeno, tendo em conta as exigências das populações mais pobres e das gerações vindouras.”
  • Discurso aos estudantes, novembro de 2011:
    “Com efeito, se no seu trabalho o homem esquecer que é colaborador de Deus, pode violar a criação e provocar danos que têm sempre conseqüências negativas também sobre o homem, como infelizmente vemos em várias circunstâncias. Hoje mais do que nunca, parece-nos claro que o respeito pelo meio ambiente não pode esquecer o reconhecimento do valor da pessoa humana e da sua inviolabilidade, em cada fase da vida e em todas as condições. O respeito pelo ser humano e o respeito pela natureza são uma só coisa, mas ambos só podem crescer e adquirir a sua justa medida, se nós respeitarmos o Criador e a sua criação na criatura humana e na natureza.”
  • Discurso ao corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé, 2010:
    “A negação de Deus desfigura a liberdade da pessoa humana, mas devasta também a criação. Daqui resulta que a salvaguarda da criação não visa tanto responder a uma exigência estética, como sobretudo a uma exigência moral, porque a natureza exprime um desígnio de amor e de verdade que nos precede e que vem de Deus. Por este motivo, compartilho a preocupação crescente causada pelas resistências de ordem econômica e política na luta contra a degradação do ambiente. Trata-se de dificuldades que se puderam constatar ainda ultimamente, por ocasião da XV Sessão da Conferência dos Estados membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as alterações climáticas, que teve lugar em Copenhague de 7 a 18 de Dezembro passado. Espero que no decurso deste ano, primeiro em Bonn e depois no México, seja possível chegar a um acordo para enfrentar de maneira eficaz esta questão. Trata-se de uma aposta tanto mais importante quanto em jogo está o próprio destino de algumas nações, nomeadamente alguns Estados insulares.”
  • Audiência Geral, Agosto de 2009:
    “A terra é um dom precioso do Criador, que delineou os ordenamentos intrínsecos, indicando-nos assim os sinais orientativos que devemos respeitar como administradores da sua criação. É precisamente a partir desta consciência, que a Igreja considera as questões ligadas ao meio ambiente e à sua salvaguarda intimamente vinculadas ao tema do desenvolvimento humano integral. (…) Então, como é importante que a comunidade internacional e os governos individualmente saibam oferecer os sinais justos aos próprios cidadãos, para contrastar de modo eficaz as modalidades de utilização do meio ambiente que lhe sejam prejudiciais! Os custos econômicos e sociais, derivados do uso dos recursos ambientais comuns, reconhecidos de maneira transparente, devem ser assumidos por aqueles que os usufruem, e não por outras populações, nem pelas gerações futuras. A salvaguarda do meio ambiente, a tutela dos recursos e do clima exigem que os responsáveis internacionais ajam de forma conjunta, no respeito pela lei e pela solidariedade, principalmente em relação às regiões mais débeis da terra.”
  • Carta ao Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, por ocasião do 7° Simpósio sobre Religião, Ciência e Meio-Ambiente, Setembro de 2007:
    “Preservação do meio-ambiente, promoção do desenvolvimento sustentável, assim como particular atenção à mudança do clima, são assuntos que preocupam gravemente toda a família humana. Nenhuma nação ou setor empresarial pode ignorar as implicações éticas presentes em todo o desenvolvimento econômico e social. Com crescente clareza a pesquisa científica demonstra que ações humanas em qualquer lugar ou região podem ter efeitos globais. As conseqüências da falta de preocupação com o meio-ambiente não podem ser limitadas a uma área ou população imediata, porque se trata de um dano à coexistência humana, com traição à dignidade humana e violação dos direitos dos cidadãos que desejam viver num ambiente seguro”.

Papa Francisco

  • Discurso na Universidade Santo Tomás, em Manila, 2015:
    “Uma segunda área onde sois chamados a dar a vossa contribuição é mostrar solicitude pelo meio ambiente. Isto não se deve apenas ao facto de que o vosso país, mais do que outros, corre o risco de ser seriamente afectado pelas alterações climáticas. Sois chamados a cuidar da criação, não só como cidadãos responsáveis, mas também como seguidores de Cristo.”
  • Discurso ao corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé, 2015:
    “A elaboração de um novo acordo sobre o clima… é urgente.”
  • Mensagem à Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, 2014:
    “Luta efetiva contra o aquecimento global será possível apenas com uma resposta coletiva, que transcenda interesses e comportamentos particulares e seja desenvolvida livre de pressões políticas e econômicas… Com relação à mudança do Clima, há um claro, definitivo e inelutável imperativo ético para agir… O estabelecimento de um tratado internacional sobre mudança do Clima é uma grave responsabilidade moral e ética.”
  • Audiência Geral, Praça de São Pedro, 2014:
    “A criação não é uma propriedade, que podemos manipular a nosso bel-prazer; nem muito menos uma propriedade que pertence só a alguns, a poucos: a criação é um dom, uma dádiva maravilhosa que Deus nos concedeu, para a cuidarmos e utilizarmos em benefício de todos, sempre com grande respeito e gratidão.”
  • Discurso ao corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé, 2014:
    “Desejo mencionar outra ferida à paz, que deriva da ávida exploração dos recursos ambientais. Embora ‘a natureza esteja à nossa disposição’ (cf. Mensagem para o XLVII Dia Mundial da Paz, 8 de Dezembro de 2013, 9), com muita freqüência ‘não a respeitamos, nem a consideramos como um dom gratuito de que devemos cuidar e colocar ao serviço dos irmãos, incluindo as gerações futuras’ (Ibid., 9). Também neste caso, há que chamar em causa a responsabilidade de cada um para que, com espírito fraterno, se persigam políticas respeitadoras desta terra, que é a casa de cada um de nós. Recordo um adágio popular, que diz: ‘Deus perdoa sempre, nós às vezes, mas a natureza – a criação – nunca perdoa quando é maltratada’. Aliás permanecem diante dos olhos os efeitos devastadores de algumas catástrofes naturais recentes. Em particular, quero lembrar uma vez mais as numerosas vítimas e as graves devastações nas Filipinas e noutros países do sudeste asiático provocadas pelo tufão Haiyan.”
  • Mensagem para o Dia Mundial da Paz, “Fraternidade, Fundamento e Caminho para a Paz”, 2014:
    “A família humana recebeu, do Criador, um dom em comum: a natureza… A natureza está à nossa disposição, mas somos chamados a administrá-la responsavelmente. Em vez disso, muitas vezes deixamo-nos guiar pela ganância, pela soberba de dominar, possuir, manipular, desfrutar; não guardamos a natureza, não a respeitamos, nem a consideramos como um dom gratuito de que devemos cuidar e colocar ao serviço dos irmãos, incluindo as gerações futuras.”
  • Exortação Apostólica EVANGELII GAUDIUM, 2013:
    “Pequenos mas fortes no amor de Deus, como São Francisco de Assis, todos nós, cristãos, somos chamados a cuidar da fragilidade do povo e do mundo em que vivemos.”
  • Homilia, Santa Missa para o início do Ministério Petrino, Solenidade de São José, 19 de março de 2013:
    “Guardemos Cristo na nossa vida, para guardar os outros, para guardar a criação! Entretanto a vocação de guardião não diz respeito apenas a nós, cristãos, mas tem uma dimensão antecedente, que é simplesmente humana e diz respeito a todos: é a de guardar a criação inteira, a beleza da criação, como se diz no livro de Gênesis e nos mostrou São Francisco de Assis… Fundamentalmente tudo está confiado à guarda do homem, e é uma responsabilidade que nos diz respeito a todos. Sede guardiões dos dons de Deus! E quando o homem falha nesta responsabilidade, quando não cuidamos da criação e dos irmãos, então encontra lugar a destruição e o coração fica ressequido… Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito econômico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos ‘guardiões’ da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! … Guardar a criação, cada homem e cada mulher, com um olhar de ternura e amor, é abrir o horizonte da esperança, é abrir um rasgo de luz no meio de tantas nuvens, é levar o calor da esperança! E, para o crente, para nós cristãos, como Abraão, como São José, a esperança que levamos tem o horizonte de Deus que nos foi aberto em Cristo, está fundada sobre a rocha que é Deus.”